25 anos de Audie Awards: Os melhores audiolivros do mercado americano

Na última segunda-feira (02), foi realizada, em Nova Iorque, nos EUA, a 25ª edição dos Audie Awards, o “Oscar” da indústria americana de audiolivros. Não, você não leu errado. Tal premiação, organizada pela Audio Publishers Association (APA) ocorre há um quarto de século, e isso, por si só, já mostra a incrível força dos audiolivros naquele país, formato que também tem crescido de forma galopante pelo resto do mundo.

Podemos ir além. Uma pesquisa divulgada no ano passado, feita pela Edison Research e Triton Digital, mostrou que 50% dos americanos com 12 anos ou mais, ouviram um audiolivro. Um crescimento de 44% em relação ao ano anterior.

Quer mais? Então, que tal saber que personalidades do calibre da ex-primeira-dama do EUA, Michelle Obama, e da celebrada atriz Meryl Streep, narraram duas das obras premiadas no evento?

Tamanha popularidade se reflete também no significativo aumento dos já altos gastos com produções de audiolivros, por parte das editoras. Isso se clarifica ao verificarmos que, das 24 categorias (como: melhor narradora, melhor narrador, melhor audiodrama, etc.), 50% foram abocanhadas somente pela HarperAudio e pela Penguin Random House Audio, selos de grupos editoriais que enxergam cada vez mais o áudio com um segmento muito rentável e por isso mesmo, muitíssimo estratégico e digno de elevados investimentos.

 

 Audiolivro do ano

O prêmio mais disputado foi vencido pelo audiolivro The only plane in the sky: and oral history of 09/11, escrito pelo jornalista Garrett M. Graff. Trata-se de um audiolivro poderoso, altamente emocional e tocante. Ele conta a história dos fatídicos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, usando os relatos de centenas de pessoas que vivenciaram aquele dia, como bombeiros, testemunhas, e sobreviventes.

Uma obra absolutamente perfeita para ser transformada em um audiolivro pela maneira com que foi concebida, já expressa em seu título.

As escolhas de produção também foram muito exitosas. Um narrador principal, Holter Graham, guia nada menos que 45 narradores, que se revezaram neste audiolivro de quase 16 horas de duração. Um imenso esforço de produção, não somente pelo aspecto técnico (pense no processo de gravação e edição de tamanha profusão de timbres de voz), mas também de direção artística (qual o melhor tom para narrar relatos tão pungentes, que por si só já carregam grande impacto?).

O uso de vários narradores, como neste audiolivro, mostra que embora o formato clássico, com somente uma pessoa narrando toda a obra, ainda seja, de longe, o mais popular, muitas produções tem ousado com saídas criativas interessantíssimas.

Veja, ou melhor, ouça, por exemplo, a produção Evil eye, da musculosa plataforma Audible, vencedora na categoria Original Work – para obras criadas especificamente para o formato de áudio. A escritora Madhuri Shekar, neste excelente audiodrama, conta a história por meio de ligações telefônicas entre os personagens, mensagens de voz e diálogos, além de também contar com efeitos sonoros (que conduzem o ouvinte na mudança de perspectivas das ligações, por exemplo).

The only plane in the sky desbancou outro título que também vinha como um dos favoritos para o prêmio, o Becoming, de autoria de Michelle Obama e narrado por ela, que já havia recebido o Grammy por melhor “álbum” de palavra falada. Nota-se que mais e mais audiolivros autobiográficos são narrados pelos próprios autores. Além do aspecto óbvio de conceder uma grande autenticidade à produção, e também pelos ganhos de marketing, o processo de narração também se mostra muitas vezes transformador para o autor. O comediante Trevor Noah, vencedor do Audie de 2018 na categoria Melhor Narrador, por sua fantástica autobiografia Born a crime (que figura como um dos melhores audiolivros já escutados por este que vos escreve), disse que quando somente leu o livro, ele se recordou dos acontecimentos relatados, mas que quando o narrou, foi como se realmente estivesse revivendo todas aquelas memórias.

The only plane in the sky também fez uso de uma estratégia que parece ser uma tendência, a inserção de conteúdos bônus para a versão em áudio de um livro. Ou seja, não apenas replicar o texto do livro original, mas também expandir a experiência do ouvinte com extras. No caso deste audiolivro, entrevistas com o autor e com o narrador principal, arquivos áudio do controle de tráfego aéreo e mais, são alguns dos conteúdos adicionais.

O último audiolivro do autor Malcom Gladwell, lançado em 2019, o Talking to strangers, foi tão enriquecido com conteúdos adicionais, como trechos de entrevistas, arquivos de áudio, dentre outros materiais, que alguns até consideram a produção como um híbrido entre o audiolivro e o podcast.

 

 

Stephen King

O evento deste ano também agraciou o escritor Stephen King com o prêmio de Lifetime Achievement (algo como o “Conjunto da Obra”). King, que já foi vencedor de quatro Audies, recebeu a homenagem por conta de seu longo envolvimento com universo dos audiolivros, tendo agido ao longo de sua vida, inclusive, quase como um embaixador informal do formato.

Seu filho, o também escritor Joe Hill, foi quem entregou o prêmio. E o próprio Hill levou para casa um Audie na categoria Short Stories/Collection, pelo seu Full throttle, uma obra narrada por 11 diferentes narradores (incluindo o autor Neil Gaiman).

O próprio Stephen King já narrou vários de seus audiolivros, e, surpreendentemente (já que são quase todos são títulos de ficção), faz um bom trabalho, sendo muito bem avaliado pelos ouvintes. O que de modo algum não é uma regra para autores de ficção narrando seus próprios trabalhos. Há vários exemplos por aí, de audiolivros que foram terrivelmente arruinados pela narração sofrível dos próprios autores.

Stephen King recebeu ainda, na mesma cerimônia, um Audie na categoria, Thriller/Suspense, por seu audiolivro The institute (desta vez, não narrado por ele).

 

André Calgaro

 

Artigo escrito para o portal PublishNews.

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